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Memórias do Samba das Rocas

Last updated on 19 de janeiro de 2022

O bairro das Rocas e o samba têm uma relação que se completa desde muito tempo, não é por acaso que recebe constantemente, por estudiosos do tema, a menção de berço do gênero na capital potiguar. Aqui farei um breve registro de alguns fragmentos e recordações que tenho, principalmente quanto ao cenário do samba durante a minha infância e juventude, nas décadas de 1960 e 1970, e personagens que fizeram essa história.


Eu nasci e morei grande parte da vida na Rua Campos Pinto (atual Rua Mestre Lucarino), a mesma da sede de uma das escolas de samba que ao longo dos anos se tornou campeã de memoráveis carnavais – me refiro à “Balanço do Morro”. Lembro que as Rocas em si sempre foi um espaço extremamente musical, com muitos moradores que na realidade eram excelentes músicos e onde se ouvia e cantava de tudo (na décadas de 1950, até meados dos anos de 1960, o bolero e o samba-canção eram os gêneros mais constantes em serestas, serenatas e encontros nas calçadas. Na época, a chamada dor-de-cotovelo estava nas rádios e vozes), o samba era mais comum de se ouvir, e observar suas movimentações, exatamente no período que antecedia o carnaval, com a preparação das principais Escolas de Samba do bairro, em ensaios e apresentações de rua.


Era bonito de ver o mestre Lucarino Roberto comandando os ensaios em frente a sua casa, que por sinal também era sede da escola e local dos ensaios. A organização das alas, o posicionamento da bateria, todos cantando o samba enredo… havia algo especial, uma perfeita união de identidade entre povo, local e expressão cultural. Vale registrar que nessa travessa que morei, também existiu a sede de outra escola de samba chamada “Serralheiros do Samba”, porém, infelizmente, não lembro muitos
detalhes, apenas que participou de alguns carnavais.


A outra agremiação, mais antiga inclusive, extremamente famosa e campeã de tantos carnavais, que contribuiu decisivamente para a associação do nome Rocas ao samba, foi a “Malandros do Samba”, comandada por Aluísio Pereira, Antônio Melé, Manoel Farrapo e outros. Vi muitas vezes, quando eles desciam a Rua do Areal com todo o seu brilho e beleza.


Nessa época não haviam bares (que eu lembre) que tivessem apresentações de grupos de samba contratados, ou de forma fixa. Os sambistas (ou simplesmente seresteiros, como muitas vezes eram referenciados pelo pessoal do bairro os que não eram ligados diretamente a agremiações, mas que tocavam e participavam, sem que na prática houvesse uma categorização ou segmentação) geralmente se reuniam nas sedes das escolas e em alguns botecos das adjacências para cantarem o repertório de artistas consagrados da música brasileira, em geral, dando seu toque característico,
influenciados pelo que vivenciavam nas próprias escolas e pelo que se ouvia no rádio.


Enfim, foram tempos marcantes na formação do samba local, na sua presença no
carnaval (dividindo com as marchinhas o repertório dos foliões, adentrando em
camadas sociais das mais distintas), na construção de um imaginário sobre o bairro e, pessoalmente, na lembrança do menino que começou a gostar de samba através do que vivenciou.

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